Em 1861, quando o presidente do Estados Unidos James Garfield se preparava para entrar no comboio, foi alvejado duas vezes. Era um homem bastante popular, embora tivesse tomado posse do cargo há apenas 6 meses. Aparentemente, o presidente recusara a nomeação de um cargo político ao atirador, por este não reunir as habilitações necessárias, ainda que fosse um membro ativo do partido (por cá, como sabemos, a falta de habilitações dos “boys” não é considerada um impedimento a nomeações políticas). Este ato de vingança foi concretizado em duas balas: uma raspou o braço de James sem produzir danos, a outra penetrou-lhe as costas, alojando-se algures no abdómen.

Para acudir o presidente foram chamados os melhores médicos e as melhores mentes do país. Talvez não saibam, mas o primeiro aparelho de ar condicionado foi criado nesta ocasião, para refrescar o quarto de Garfield – conseguiram diminuir o calor em 11 graus, ainda que com custos elevadíssimos. No entanto, o maior problema com que se depararam foi o de identificar o local exato da bala no corpo do presidente, por forma a poderem extraí-la sem danos. Um dos maiores génios da época, Alexander Graham Bell, no auge da sua popularidade, acreditou ter a solução: no processo de inventar o telefone, criara um detetor de metais capaz de identificar a bala.

Quando Bell aproximou o aparelho do presidente, o sinal sonoro disparou de imediato. O problema foi que o aparelho continuava sempre a tocar, à medida que o deslocavam pelo corpo do doente, como se todo ele contivesse metal. Um fracasso.

Foram precisas algumas semanas para que Bell descobrisse a razão do seu insucesso: o aparelho tinha detetado as molas metálicas do colchão onde se encontrava deitado o presidente. Infelizmente já não foi a tempo de salvar James Garfield, que morreu em consequência dos médicos o remexerem a procurar a bala. Não questionar pressupostos teve consequências trágicas.

Ao longo de anos de trabalho com empresas, vi muitas pessoas brilhantes a usarem detetores de metais em colchões de molas. Fazer porque sempre se fez assim, usar soluções caseiras porque são “nossas” e não por serem as melhores. Especialmente se os resultados globais da empresa forem bons, tendemos a não questionar os processos.

Os resultados positivos geram quase inevitavelmente alguma complacência, ainda que por vezes bem disfarçada. Questionar continuamente pressupostos é fundamental para alcançar o sucesso e, mais difícil ainda, para mantê-lo. Peter Drucker, un dos grandes gurus da gestão, dizia que era pago para fazer perguntas estúpidas. E não faltam perguntas para fazer: sobre a indústria, a empresa, a cultura, os custos, como conseguir clientes, como vender, como cobrar. O que mais falta faz é a coragem, individual e coletiva, de fazer perguntas que possam pôr em causa a nossa forma de pensar.

Nestes tempos tumultuosos, as empresas vão levar muito mais que dois tiros. Quantas sobreviverão usando detetores de metal em colchões de molas?

 

pedro amendoeiraSobre o autor: Pedro Amendoeira, é Partner da Expense Reduction Analysts, multinacional especializada na redução de custos, cujos honorários advêm em exclusivo dos resultados gerados.

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